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Fernando
Pessoa

Fernando Antônio Pessoa
Nogueira nasceu em Lisboa em 1888 e aí morreu em 1935.
A riqueza da obra poética deixada
por Fernando Pessoa coloca-o indiscutivelmente como um dos maiores
nomes da literatura portuguesa de todos os tempos. A profunda
lucidez com que investiga a condição humana é a marca de sua poesia.
No entanto, apesar de a emoção e os sentimentos serem agudamente
vigiados pela razão, sua obra não é filosofia. A maleabilidade do
verso, a surpreendente originalidade com que forja expressões e
metáforas, a felicidade dos achados lingüísticos e a profunda visão
subjetiva da realidade fazem de sua obra a expressão de um espírito
lúcido, mas sempre expressão lírica.
Na ânsia de buscar o significado
da existência, na ânsia de examinar a realidade de diferentes
ângulos, Fernando Pessoa desdobrou-se em vários heterônimos,dos
quais Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis são os
principais. Esses heterônimos, na verdade são desmembramentos
de seu próprio "eu" lírico, são outras "personalidades" de Fernando
Pessoa "ele-mesmo" :
" MULTIPLIQUEI-ME, PARA ME SENTIR,
/PARA ME SENTIR, PRECISEI TUDO, /
TRANSBORDEI-ME, NÃO FIZ SENÃO EXTRAVASAR-ME".
Para cada um desses heterônimos, Fernando Pessoa
criou um estilo, uma linguagem, uma visão de mundo e até uma
"biografia" .Os poemas de Fernando Pessoa compõe um dos maiores
enigmas da história da Literatura. Um poeta que inventa outros,
dá-lhes biografia, estilo próprio e até um mapa astral. Todos são
grandes poetas e apresentam diferentes posturas artísticas.
"Alberto Caeiro(1889 / 1915)- Nasceu em Lisboa, mas viveu
quase toda sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase
alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe,e
deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia
com uma tia velha, tia avó.Morreu tuberculoso".
Pessoa cria uma biografia para
Caeiro que se encaixa com perfeição à sua poesia. Ele escreve com a
linguagem simples e o vocabulário limitado de um poeta camponês
pouco ilustrado.Pratica o realismo sensorial, numa atitude de
rejeição à linguagem sugestiva e à construção de imagens vagas da
poesia simbolista.
"EU NÃO TENHO
FILOSOFIA:TENHO SENTIDOS...
SE FALO NA NATUREZA NÃO É PORQUE SAIBA O QUE ELA É,
MAS PORQUE A AMO, E AMO-A POR ISSO,
PORQUE QUEM AMA NUNCA SABE O QUE AMA
NEM SABE PORQUE AMA,
NEM O QUE É AMAR (...)" .
Ricardo Reis(1887
/ 1935)- "Nasceu no Porto.Educado em colégio de Jesuítas, é médico e
vive no Brasil desde 1919, pois expatriou-se por ser monárquico. É
latinista por educação alheia e um semi-helenista por educação
própria."
Se Alberto Caeiro era um camponês
autodidata, desprovido de erudição, seu discípulo Ricardo Reis era
um erudito que insistia na defesa de valores tradicionais, tanto na
literatura quanto na política.Insiste nos clichês árcades do locus
amoenus(local ameno) e do carpe diem(aproveitar o momento).Sua
linguagem é clássica,seus poemas apresentam uma sintaxe rebuscada.
Para Ricardo Reis, os deuses estão
acima de tudo e controlam o destino dos homens.
"
PARA SER GRANDE ,SÊ INTEIRO:NADA TEU EXAGERA OU EXCLUI.
SÊ TODO EM CADA COISA. PÕE QUANTO ÉS
NO MÍNIMO QUE FAZES.
ASSIM EM CADA LAGO A LUA TODA
BRILHA, PORQUE ALTA VIVE".

Álvaro de Campos
(1890 / 1935)-Fernando Pessoa nos informa que:"Álvaro de Campos
nasceu em Távia, teve uma educação vulgar de liceu; depois foi
mandado para a Escócia estudar Engenharia, primeiro mecânica e
depois naval. Fez uma viagem de férias ao Oriente de onde resultou o
Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inatividade"
No poema Opiário, o engenheiro
Campos, influenciado pelo Simbolismo, ainda metrifica e rima.
Escreve quadras, estrofes de quatro versos, de teor autobiográfico e
se apresenta amargurado e insatisfeito. Em seguida, Campos envereda
pelo Futurismo, adotando um estilo febril, entre máquinas e a
agitação da cidade, do que resultam poemas como Ode Triunfal:
"À DOLOROSA LUZ DAS LÂMPADAS
ELÉTRICAS DA FÁBRICA
TENHO FEBRE E ESCREVO .
ESCREVO RANGENDO OS DENTES, FERA PARA A BELEZA DISTO,
PARA A BELEZA DISTO TOTALMENTE
DESCONHECIDO DOS ANTIGOS (...)".
A última fase do heterônimo Álvaro
de Campos, em que pontifica o poema Tabacaria, apresenta um poeta
amargurado, refletindo de forma pessimista e desiludida sobre a
existência:
"NÃO SOU NADA.
NUNCA SEREI NADA.
NÃO POSSO QUERER SER NADA.
À PARTE ISSO, TENHO EM MIM TODOS OS SONHOS DO
MUNDO(...)".
Assim como Ricardo Reis, Álvaro de
Campos confessa-se discípulo de Alberto Caeiro. Mas, se Reis
envereda pelo Neoclassicismo ao tentar imitar o mestre, Campos se
revela inquieto e frustrado por não conseguir seguir os preceitos de
Caeiro. No poema que se inicia pelo verso: "Mestre, meu mestre
querido", dialoga com Caeiro, revelando toda sua angustia:
"MEU MESTRE,MEU CORAÇÃO NÃO
APRENDEU A TUA SERENIDADE./ MEU CORAÇÃO NÃO APRENDEU NADA. (...) / A
CALMA QUE TINHAS, DESTE-MA, E FOI-ME INQUIETAÇÃO".
(...) Vi todas as coisas, maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não
conseguisse,
Amei e odiei como toda a gente, Mas para toda a gente isso foi
normal e institivo. E para mim foi sempre a exceção, o choque, a
válvula, o espasmo.(...)"
Álvaro
de Campos
em
Passagem das Horas
FERNANDO PESSOA
ELE-MESMO(1888/1935)-A obra que Fernando Pessoa assinou por seu
próprio nome está reunida nos volumes Cancioneiro e Mensagem. O
Cancioneiro é composto por poemas líricos, rimados e metrificados,
de forte influência simbolista. Um dos poema mais célebres de Pessoa
é Autopsicografia,em que se reflete sobre o fazer poético.O leitor
atento há de perceber que o poeta parte de uma dor sua, real,
integral. Só quem sente uma dor pode fingir outra que não sente. Só
quem tem personalidade pode ser ator. Como Fernando Pessoa.
Mensagem (1934) foi o único livro
em Língua Portuguesa publicado por Pessoa em vida. Seus poemas estão
organizados de forma a compor uma epopéia fragmentária, em que o
conjunto dos textos líricos acaba formando um elogio de teor épico a
Portugal.
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito desta
frase, transformada a forma para casar como o que eu sou:"Viver não
é necessário; o necessário é criar.
O ENIGMA EM
PESSOA
Ao escrever sobre Fernando Pessoa,
o poeta mexicano Octávio Paz afirma que "os poetas não tem
biografia.Sua obra é sua biografia" . Diz ainda que, no caso de
Pessoa, "nada em sua vida é surpreendente - nada, exceto seus
poemas" .
Homem de vida pública modesta,
Fernando Pessoa dedicou-se a inventar.
Através da poesia, criou outras
vidas, despertando, assim, o interesse por sua própria vida tão
pacata. Tornou-se, portanto, "o enigma em pessoa".
A última frase de Fernando Pessoa foi escrita em
inglês no dia de sua morte:
"I know not what tomorrow will bring" ou "Eu não sei o
que o amanhã trará".
O amanhã trouxe para Fernando Pessoa uma
admiração crescente. Suas obras foram aos poucos sendo publicadas e
hoje ele é considerado, ao lado de Camões, um dos maiores poetas
portugueses de todos os tempos. Nenhum poeta, em Língua Portuguesa,
obteve tanto prestígio em todo o mundo. Graças ao poder da
palavra. Graças à magia da poesia.


Aqui nesta página
estarei colocando algumas poesias, alguns versos de Fernando Pessoa
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Autopsicografia |
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(ele - mesmo) |
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O
poeta é um fingidor. |
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Finge tão completamente |
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Que
chega a sentir que é dor |
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A
dor que deveras sente |
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E
os que lêem o que escreve, |
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Na
dor lida sentem bem, |
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Não
as duas que ele teve, |
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Mas
só as que eles não têm. |
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E
assim nas calhas de roda |
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Gira, a entreter a razão, |
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Esse comboio de corda |
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Que
se chama o coração. |
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"Corai-me de rosas"
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"Corai-me de rosas" |
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Corai-me de rosas, |
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Corai-me em verdade |
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De
rosas - |
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Rosas que se apagam |
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Em
fronte a apagar-se |
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Tão
cedo! |
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Corai-me de rosas |
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E
de folhas breves. |
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E
basta. |
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Ricardo Reis |
12/06/1914
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de poesias
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"Lídia"
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Vem
sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. |
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Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos |
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Que
a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. |
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(Enlacemos as mãos.) |
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Depois pensemos, crianças adultas, que a vida |
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Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, |
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Vai
para um mar muito longe, para ao pé do Fado, |
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Mais longe que os deuses. |
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Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena
cansarmos-nos. |
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Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como rio. |
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Mais vale saber passar silenciosamente |
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E
sem desassossegos grandes. |
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Sem
amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, |
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Nem
invejas que dão movimento demais aos olhos, |
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Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre
correria, |
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E
sempre iria ter ao mar. |
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Amemos-nos tranqüilamente, pensando que podíamos, |
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Se
quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, |
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Mas
que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro |
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Ouvindo correr o rio e vendo-o. |
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Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as |
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No
colo, e que o seu perfume suavize o momento - |
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Este momento em que sossegadamente não cremos em nada, |
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Pagãos inocentes da decadência. |
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Ao
menos, se for sombra antes, lembrar-te-às de mim depois |
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Sem
que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova. |
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Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos |
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Nem
fomos mais do que crianças. |
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E
se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio, |
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Eu
nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti |
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Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à
beira-rio, |
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Pagão triste e com flores no regaço. |
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(12/06/1914) |
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"MAR PORTUGUEZ"
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TUDO VALE
A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA
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Ó
mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
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Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. |
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O Meu Olhar
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ALBERTO
CAEIRO (08/03/1914) |
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Guardador
de Rebanhos
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O
meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo... |
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Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ... |
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O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de
acordo... |
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar... |
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O Tejo é mais Belo
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O Tejo é mais
belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela
minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. |
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O
Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
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O
Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
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|
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
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|
O
rio da minha aldeia no faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
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Alberto Caeiro |
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"Sábio é o que
se contenta..."
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Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
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E
ao beber nem recorda |
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Que
já bebeu na vida, |
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Para quem tudo é novo |
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E
imarcescível sempre. |
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Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis, |
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Ele
sabe que a vida |
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Passa por ele e tanto |
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Corta à flor como a ele |
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De
Átropos a tesoura. |
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Mas
ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
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Que
o seu sabor orgíaco |
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Apague o gosto às horas, |
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Como a uma voz chorando |
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O
passar das bacantes. |
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Ele
espera, contente quase e bebedor tranqüilo. |
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E
apenas desejando |
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Num
desejo mal tido |
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Que
a abominável onda |
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O
não molhe tão cedo.
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(19/06/1914) |
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Ricardo
Reis |
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SIM,sei bem...
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Ricardo
Reis (08/07/1931) |
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Sim,sei bem |
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Que
nunca terei alguém. |
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Sei
de sobra |
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Que
nunca terei uma obra. |
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Sei, enfim, |
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Que
nunca saberei de mim. |
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Sim, sei agora, |
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Enquanto dura esta hora, |
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Este luar, estes ramos, |
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Esta paz em que estamos, |
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Deixem-me crer |
|
O
que nunca poderei ser. |
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TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte
isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do
mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que
saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada
constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os
pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa,
desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das
pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humildade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o
Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se
soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse
para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as
coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta
casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio,
e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma
sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como
quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade
que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como
coisa real por fora,
E à
sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez
tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da
casa,
Fui até ao campo com grandes
propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à
outra.
Saio da
janela, sento-me numa cadeira. Em que hei - de pensar?
Que sei eu do que serei, eu
que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta
coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma
coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho
gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?,
nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas
conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos
malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou
mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do
mundo
Não estão nesta hora
gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e
lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e
lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem
acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o
conquistar
E não para quem sonha que pode
conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão
fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais
humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que
nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da
mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para
isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe
abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa
capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça
ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me
acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver
que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos
levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra
inteira,
Mais o
sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no
mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam
mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma
verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de
prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo
para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da
amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um
desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que
atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o
decurso das coisas,
E fico em
casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não
existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua
que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente
nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima
e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada
e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos
pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo
bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas,
se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam
espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma
nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo
os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se
cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação
ao degredo,
E tudo isto
é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até
cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje
só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas
e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem
estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de
tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um
lagarto a quem cortam o rabo
E que é
rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e
não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o
dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no
vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou
escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus
versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa
que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da
Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar
existindo,
Como um tapete em que um bêbado
tropeça
Ou um
capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria
chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal
voltada
E com o desconforto da alma
mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei
versos.
A certa altura morrerá a tabuleta
também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua
onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os
versos.
Morrerá depois o planeta girante em que
tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas
qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e
vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a
outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o
real,
Sempre o mistério do fundo tão certo
como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto
ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na
Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente
em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido,
humano,
E vou
tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar
em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de
todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e
competente,
A libertação de todas as especulações
E a
consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal
disposto.
Depois deito-me para trás na
cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o
Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha
da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto,
levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria
(metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem
metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves
voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó
Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria
sorriu.
15/01/1928
Álvaro de Campos
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"Uns Versos
Quaisquer"
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Vive um momento
com saudade dele
Já ao vivê-lo . . .
Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e no sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos . . .
|
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Demo-nos pois a
consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
E que nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja . . . |
|
Assim idênticos
hora toda
Em seu pleno sabor,
Nossa vida ser nossa anteboda:
No ns, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,
E a morte no vir nem tarde ou cedo . . . |
|
Porque o que
importa que já nada importe . . .
Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,
Ou, tênue e longe, cale
Seus gestos . . . Tudo o mesmo . . . Eis o momento .
. .
Sejamo-lo . . . Pra que o pensamento? . . .
|
|
11.10.1914 |
Várias
poesias foram tiradas da Internet, se porventura os autores não
quiserem
que
elas permaneçam aqui, contate-me por e-mail.
Obrigada.
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