POETAS PIRAJU LINK'S

Fernando Pessoa

 

 

Fernando Antônio Pessoa Nogueira nasceu em Lisboa em 1888 e aí morreu em 1935.

A riqueza da obra poética deixada por Fernando Pessoa coloca-o indiscutivelmente como um dos maiores nomes da literatura portuguesa de todos os tempos. A profunda lucidez com que investiga a condição humana é a marca de sua poesia. No entanto, apesar de a emoção e os sentimentos serem agudamente vigiados pela razão, sua obra não é filosofia. A maleabilidade do verso, a surpreendente originalidade com que forja expressões e metáforas, a felicidade dos achados lingüísticos e a profunda visão subjetiva da realidade fazem de sua obra a expressão de um espírito lúcido, mas sempre expressão lírica.

Na ânsia de buscar o significado da existência, na ânsia de examinar a realidade de diferentes ângulos, Fernando Pessoa desdobrou-se em vários heterônimos,dos quais  Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis são os principais. Esses heterônimos,  na verdade são desmembramentos de seu próprio "eu" lírico, são outras "personalidades" de Fernando Pessoa "ele-mesmo" :

               " MULTIPLIQUEI-ME, PARA ME SENTIR, /PARA ME SENTIR, PRECISEI TUDO, /

 TRANSBORDEI-ME, NÃO FIZ SENÃO EXTRAVASAR-ME".

Para cada um desses heterônimos, Fernando Pessoa criou um estilo, uma linguagem, uma visão de mundo e até uma "biografia" .Os poemas de Fernando Pessoa compõe um dos maiores enigmas da história da Literatura. Um poeta que inventa outros, dá-lhes biografia, estilo próprio e até um mapa astral. Todos são grandes poetas e apresentam diferentes posturas artísticas.

                                  "Alberto Caeiro(1889 / 1915)- Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe,e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó.Morreu tuberculoso".

Pessoa cria uma biografia para Caeiro que se encaixa com perfeição à sua poesia. Ele escreve com a linguagem simples e o vocabulário limitado de um poeta camponês pouco ilustrado.Pratica o realismo sensorial, numa atitude de rejeição à linguagem sugestiva e à construção de imagens vagas da poesia simbolista.

                     "EU NÃO TENHO FILOSOFIA:TENHO SENTIDOS...

                          SE FALO NA NATUREZA NÃO É PORQUE SAIBA O QUE ELA É,

                                MAS PORQUE A AMO, E AMO-A POR ISSO,

                                      PORQUE QUEM AMA NUNCA SABE O QUE AMA

                                                 NEM SABE PORQUE AMA,

                                                 NEM O QUE É AMAR (...)" .

Ricardo Reis(1887 / 1935)- "Nasceu no Porto.Educado em colégio de Jesuítas, é médico e vive no Brasil desde 1919, pois expatriou-se por ser monárquico. É latinista por educação alheia e um semi-helenista por educação própria."

Se Alberto Caeiro era um camponês autodidata, desprovido de erudição, seu discípulo Ricardo Reis era um erudito que insistia na defesa de valores tradicionais, tanto na literatura quanto na política.Insiste nos clichês árcades do locus amoenus(local ameno) e do carpe diem(aproveitar o momento).Sua linguagem é clássica,seus poemas apresentam uma sintaxe rebuscada.

Para Ricardo Reis, os deuses estão acima de tudo e controlam o destino dos homens.

                 " PARA SER GRANDE ,SÊ INTEIRO:NADA TEU EXAGERA OU EXCLUI.

                         SÊ TODO EM CADA COISA. PÕE QUANTO ÉS

                               NO MÍNIMO QUE FAZES.

                       ASSIM EM CADA LAGO A LUA TODA

                       BRILHA, PORQUE ALTA VIVE".

       

               

                         Álvaro de Campos (1890 / 1935)-Fernando Pessoa nos informa que:"Álvaro de Campos nasceu em Távia, teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar Engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Fez uma viagem de férias ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inatividade"

No poema Opiário, o engenheiro Campos, influenciado pelo Simbolismo, ainda metrifica e rima. Escreve quadras, estrofes de quatro versos, de teor autobiográfico e se apresenta amargurado e insatisfeito. Em seguida, Campos envereda pelo Futurismo, adotando um estilo febril, entre máquinas e a agitação da cidade, do que resultam poemas como Ode Triunfal:

                    "À DOLOROSA LUZ DAS LÂMPADAS ELÉTRICAS DA FÁBRICA

           TENHO FEBRE E ESCREVO .

           ESCREVO RANGENDO OS DENTES, FERA PARA A BELEZA DISTO,

      PARA A BELEZA DISTO TOTALMENTE DESCONHECIDO DOS ANTIGOS (...)".

A última fase do heterônimo Álvaro de Campos, em que pontifica o poema Tabacaria, apresenta um poeta amargurado, refletindo de forma pessimista e desiludida sobre a existência:

                     "NÃO SOU NADA.

NUNCA SEREI NADA.

NÃO POSSO QUERER SER NADA.

À PARTE ISSO, TENHO EM MIM TODOS OS SONHOS DO MUNDO(...)".

Assim como Ricardo Reis, Álvaro de Campos confessa-se discípulo de Alberto Caeiro. Mas, se Reis envereda pelo Neoclassicismo ao tentar imitar o mestre, Campos se revela inquieto e frustrado por não conseguir seguir os preceitos de Caeiro. No poema que se inicia pelo verso: "Mestre, meu mestre querido", dialoga com Caeiro, revelando toda sua angustia:

"MEU MESTRE,MEU CORAÇÃO NÃO APRENDEU A TUA SERENIDADE./ MEU CORAÇÃO NÃO APRENDEU NADA. (...) / A CALMA QUE TINHAS, DESTE-MA, E FOI-ME INQUIETAÇÃO".

(...) Vi todas as coisas, maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse,
Amei e odiei como toda a gente, Mas para toda a gente isso foi normal e institivo. E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.(...)"
 Álvaro de Campos

   
em  Passagem das Horas

FERNANDO PESSOA ELE-MESMO(1888/1935)-A obra que Fernando Pessoa assinou por seu próprio nome está reunida nos volumes Cancioneiro e Mensagem. O Cancioneiro é composto por poemas líricos, rimados e metrificados, de forte influência simbolista. Um dos poema mais célebres de Pessoa é Autopsicografia,em que se reflete sobre o fazer poético.O leitor atento há de perceber que o poeta parte de uma dor sua, real, integral. Só quem sente uma dor pode fingir outra que não sente. Só quem tem  personalidade pode ser ator. Como Fernando Pessoa.

Mensagem (1934) foi o único livro em Língua Portuguesa publicado por Pessoa em vida. Seus poemas estão organizados de forma a compor uma epopéia fragmentária, em que o conjunto dos textos líricos acaba formando um elogio de teor épico a Portugal.

                                                    Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:  "Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para casar como o que eu sou:"Viver não é necessário; o necessário é criar.

         O ENIGMA EM PESSOA

Ao escrever sobre Fernando Pessoa, o poeta mexicano Octávio Paz afirma que "os poetas não tem biografia.Sua obra é sua biografia" . Diz ainda que, no caso de Pessoa, "nada em sua vida é surpreendente - nada, exceto seus poemas" .

Homem de vida pública modesta, Fernando Pessoa dedicou-se a inventar.

Através da poesia, criou outras vidas, despertando, assim, o interesse por sua própria vida tão pacata. Tornou-se, portanto, "o enigma em pessoa".

 

A última frase de Fernando Pessoa foi escrita em inglês no dia de sua morte:

   "I know not what tomorrow will bring"  ou  "Eu não sei o que o amanhã trará".

O amanhã trouxe para Fernando Pessoa uma admiração crescente. Suas obras foram aos poucos sendo publicadas e hoje ele é considerado, ao lado de Camões, um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. Nenhum poeta, em Língua Portuguesa, obteve tanto prestígio em todo o mundo. Graças ao poder da palavra. Graças à magia da poesia.

Aqui nesta página estarei colocando algumas poesias, alguns versos de Fernando Pessoa

 


 

Autopsicografia

                                                    (ele - mesmo)

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a sentir que é dor

A dor que deveras sente

 

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só as que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.

 


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"Corai-me de rosas"

 

"Corai-me de rosas"

Corai-me de rosas,

Corai-me em verdade

De rosas -

Rosas que se apagam

Em fronte a apagar-se

Tão cedo!

Corai-me de rosas

E de folhas breves.

E basta.

                                 Ricardo Reis

                                                                                                                                 12/06/1914


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"Lídia"

 

 

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

 

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

 

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmos-nos.

Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como rio.

Mais vale saber passar silenciosamente

E sem desassossegos grandes.

 

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,

Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,

Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

E sempre iria ter ao mar.

 

Amemos-nos tranqüilamente, pensando que podíamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.

 

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as

No colo, e que o seu perfume suavize o momento -

Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,

Pagãos inocentes da decadência.

 

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-às de mim depois

Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova.

Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos

Nem fomos mais do que crianças.

 

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,

Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti

Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,

Pagão triste e com flores no regaço.

 

(12/06/1914)

 
 

 


 

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"MAR PORTUGUEZ"

 

TUDO VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

 


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O Meu Olhar

 

 ALBERTO CAEIRO (08/03/1914)

Guardador de Rebanhos

 

      O meu olhar é nítido como um girassol.
     Tenho o costume de andar pelas estradas
     Olhando para a direita e para a esquerda,
     E de, vez em quando olhando para trás...
     E o que vejo a cada momento
     É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
     E eu sei dar por isso muito bem...
     Sei ter o pasmo essencial
     Que tem uma criança se, ao nascer,
     Reparasse que nascera deveras...
     Sinto-me nascido a cada momento
     Para a eterna novidade do Mundo...

     Creio no mundo como num malmequer,
     Porque o vejo.  Mas não penso nele
     Porque pensar é não compreender ...

     O Mundo não se fez para pensarmos nele
     (Pensar é estar doente dos olhos)                  
     Mas para olharmos para ele e estarmos de  acordo...

     Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
     Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
     Mas porque a amo, e amo-a por isso,
     Porque quem ama nunca sabe o que ama
     Nem sabe por que ama, nem o que amar ...
     Amar é a eterna inocência,
     E a única inocência não pensar...

 


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O Tejo é mais Belo

 

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

 

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

 

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.  
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente, 
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.  

 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.  
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

 

O rio da minha aldeia no faz pensar em nada.  
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

 

                                Alberto  Caeiro

 


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"Sábio é o que se contenta..."

 

 

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,

E ao beber nem recorda

Que já bebeu na vida,

Para quem tudo é novo

E imarcescível sempre.

 

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,

Ele sabe que a vida

Passa por ele e tanto

Corta à flor como a ele

De Átropos a tesoura.

 

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,

Que o seu sabor orgíaco

Apague o gosto às horas,

Como a uma voz chorando

O passar das bacantes.

 

Ele espera, contente quase e bebedor tranqüilo.

E apenas desejando

Num desejo mal tido

Que a abominável onda

O não molhe tão cedo.

 

 (19/06/1914)

Ricardo Reis

 


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SIM,sei bem...

 

 

Ricardo Reis (08/07/1931)

 

Sim,sei bem

Que nunca terei alguém.

Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

Sim, sei agora,

Enquanto dura esta hora,

Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

Deixem-me crer

O que nunca poderei ser.

 


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TABACARIA 

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humildade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei - de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordamos e ele é opaco, 
Levantamo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

15/01/1928

Álvaro de Campos

 


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"Uns Versos Quaisquer"

 

 

Vive um momento com saudade dele
Já ao vivê-lo . . .
Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e no sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos . . .

Demo-nos pois a consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
E que nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja . . .

Assim idênticos hora toda
Em seu pleno sabor,
Nossa vida ser nossa anteboda:
No ns, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,
E a morte no vir nem tarde ou cedo . . .

Porque o que importa que já nada importe . . .
Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,
Ou, tênue e longe, cale
Seus gestos . . . Tudo o mesmo . . . Eis o momento . . .
Sejamo-lo . . . Pra que o pensamento? . . .
 

11.10.1914

 

 Várias poesias foram tiradas da Internet, se porventura os autores não quiserem

 que elas permaneçam aqui, contate-me por e-mail.

Obrigada.

 

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