POETAS PIRAJU LINK'S

      Drummond de Andrade        

1902/1987

Frases e épocas que marcaram a vida do escritor Mineiro.

REFAZENDO O CAMINHO(1902)

"E eu não sabia que minha história /era mais bonita que a de Robinson Crusoé."

NASCE O ESCRITOR (1918)

"O menino ambicioso /não de poder ou de glória /mas de soltar a coisa /oculta no seu peito escreve no caderno /e vagamente conta /à maneira de sonho /sem sentido nem forma /aquilo que não sabe."

FORJA-SE O HOMEM (1925)

"De repente, a vida começou a impor-se, a desafiar-me com seus pontos de interrogação, que se desmanchavam para dar lugar a outros. Eu liquidava esses outros e apareciam novos."

MATURIDADE (1940)

"Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade /com sua maré de ciência afinal superadas./Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,/descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via."

O APOSENTADO TRABALHA (1962)

"Quero a paz das estepes/a paz dos descampados/a paz do Pico de Itabira quando havia Pico de Itabira/a paz de cima das Agulhas Negras/a paz da mina mais funda e esboroada de Morro Velho/a paz/da/paz."

EM FACE DA MORTE (1980)

"A cavalo de galope/a cavalo de galope/a cavalo de galope/lá vem a morte chegando."

UM EU TODO RETORCIDO

"Quando nasci, um anjo torto/desses que vivem na sombra/disse:

Vai, Carlos! ser gauche na vida" ("Poema de sete faces" ).

A TERRA NATAL, A FAMÍLIA

"Espírito de minas, me visita,/e sobre a confusão desta cidade,/onde voz e buzina se confundem,/lança teu raio ordenador./Conserva em mim ao menos a metade/do que fui de nascença e a vida esgarça"

(Prece do mineiro no Rio").

NA PRAÇA DE CONVITES

"Não serei o poeta de um mundo caduco./Também não cantarei o mundo futuro./Estou preso à vida e olho meus companheiros./Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças./Entre eles considero a enorme realidade"   ("Mãos Dadas").

POESIA CONTEMPLADA E METAFÍSICA

"De que se formam nossos poemas? Onde?/Que sonho envenenado lhes responde,/se o poeta é um ressentido, o mais são nuvens?"(Conclusão)

"Que milagre é o homem?/Que sonho, que sombra?/Mas existe o homem?"(Especulações em torno da palavra")

DE UM AMAR-AMARO AO RECONHECIMENTO DO AMOR

"(...) o amor car(o,a) colega este não consola nunca de nuncaras".  ("Amar-Amaro")

"Agora, amada minha para sempre,/ nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar/ a melodia, a paisagem, a transparência da vida,/perdidos que estamos na concha ultramarina de amar" ("Reconhecimento do Amor").

O TEMPO, TEMA SÍNTESE DE POESIA

"O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente" ("Mãos Dadas").

"São dois em um: amor sublime selo/que a vida imprime cor, graça e sentido" (Amor").

 

Algumas poesias de Drummond

 

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"AMAR"  

 

    DRUMMOND

 

Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

amar o que o mar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão vazio,

 e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas

doação ilimitada a uma completa ingratidão.

 


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Amor e seu tempo

 

 

Drummond

 

Amor é privilégio de maduros

estendidos na mais estreita cama,

que se torna a mais larga e mais relvosa,

roçando em cada poro o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,

o prêmio subterrâneo e coruscante,

leitura de relâmpago cifrado,

que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,

salvo o minuto de ouro no relógio

minúsculo,vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,

depois de se arquivar toda a ciência

herdada, ouvida. Amor começa tarde.

 


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"No meio do Caminho"

DRUMMOND

 

No meio do caminho tinha uma pedra.

Tinha uma pedra no meio do caminho.

Tinha uma pedra.

No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra.

Tinha uma pedra no meio do caminho.

No meio do caminho tinha uma pedra.

 


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"Nova canção do exílio"

DRUMMOND

 

Um sabiá

na palmeira, longe.

Estas aves cantam

um outro canto.

 

O céu cintila

sobre flores úmidas.

Vozes na mata,

e o maior amor.

 

Só, na noite,

seria feliz:

um sabiá,

na palmeira, longe.

 

Onde é tudo belo

e fantástico,

só, na noite,

seria feliz.

(Um sabiá, na palmeira ao longe.)

 

Ainda um grito de vida e voltar

para onde tudo é belo e fantástico:

a palmeira, o sabiá, o longe.

 


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"Qualquer Tempo"

DRUMMOND

Qualquer tempo é tempo

A hora mesma da hora é hora de nascer

Nenhum tempo é tempo bastante para a ciência de ver, rever.

Tempo, contratempo anulam-se, mas o sonho resta, de viver.

 


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José

 

 

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, Você?

Você que é sem nome,

que zomba dos outros,

Você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

 

 

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

 

 

E agora, José?

sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio, - e agora?

 

 

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

 

 

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse,

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse....

Mas você não morre,

você é duro, José!

 

 

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja do galope,

você marcha, José!

José, para onde?


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