Clarice Lispector
Bibliografia Clarice nasce em Tchelchenik, na Ucrânia, em 1920. Chega ao
Brasil com os pais e as duas irmãs aos dois meses de idade,
instalando-se em Recife. A infância é envolta em sérias dificuldades
financeiras. A mãe morre quando ela conta 9 anos de idade. A família
então se transfere para o Rio de Janeiro, onde Clarice começa a
trabalhar como professora particular de português. A relação
professor/aluno seria um dos temas preferidos e recorrentes em toda
a sua obra - desde o primeiro romance: Perto do Coração Selvagem.
Ela estuda Direito, por contingência. Em seguida, começa a trabalhar
na Agência Nacional, como redatora. No jornalismo, conhece e se
aproxima de escritores e jornalistas como Antônio Callado, Hélio
Pelegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Alberto Dines e
Rubem Braga. Os passos seguintes são o jornal A Noite e o início do
livro Perto do Coração Selvagem - segundo ela, um processo cercado
pela angústia. O romance a persegue. As idéias surgem a qualquer
hora, em qualquer lugar. Nasce aí uma das características do seu
método de escrita - anotar as idéias a qualquer hora, em qualquer
pedaço de papel.
Perto do Coração Selvagem recebe o prêmio da Fundação Graça Aranha. Nas palavras de Lauro Escorel, as características do romance revelam uma "personalidade de romancista verdadeiramente excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela força da sua natureza inteligente e sensível". Já no primeiro livro, identifica-se o estilo muito pessoal da escritora. Nas páginas, Clarice explora pela primeira vez a solidão e a incomunicabilidade humana, através de uma prosa inquieta, próxima da poesia em determinados momentos. Rumo à Europa, os Gurgel Valente passam por Natal. De lá para Nápoles. Já na saída do Brasil, Clarice mostra-se dividida entre a obrigação de acompanhar o marido e ter de deixar a família e os amigos. Quando chega à Itália, depois de um mês de viagem, escreve: "Na verdade não sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo sei viajar". Clarice permanece em Nápoles até 1946. Durante a II Guerra, presta ajuda num hospital de soldados brasileiros. Uma dúvida: um serviço prestado como cidadã brasileira ou como mulher de um diplomata brasileiro? Como escritora, ela sente a presença do sucesso. Por telegrama, sabe do prêmio recebido pelo romance deixado no Brasil. Mantém uma correspondência constante com os amigos que deixara para trás. Em Nápoles, em 44, conclui O Lustre, livro iniciado no Brasil e que seria publicado em 1946. Virgínia, a personagem principal de O Lustre, tem a história narrada desde a infância e também aparece sob o signo do mal, tal como Joana, personagem do primeiro romance. Em O Lustre, Virgínia mantém um relacionamento incestuoso com o irmão, Daniel, com quem faz reuniões secretas em que experimentam verdades, na condição de iniciados especiais. Nessa época, Clarice Lispector se corresponde com Lúcio Cardoso, que não gosta do título do livro: acha-o "mansfieldiano" e um pouco pobre para pessoa tão rica como Clarice. Manuel Bandeira, que publicara Poesias Completas e Poemas
Traduzidos e enviara os exemplares para Clarice na Europa, pede, em
1945, alguns de seus poemas para serem publicados.
O período na Suíça caracteriza-se pela saudade do Brasil, dos
amigos e das irmãs. A correspondência que recebe não lhe parece
suficiente. Até 52, escreveria contos, gênero em que Clarice
Lispector talvez não tenha sido alcançada na literatura brasileira.
Alguns Contos foi publicado em 52, quando ela já tinha deixado
Berna, passado seis meses na Inglaterra e partido para os Estados
Unidos, acompanhando o marido. Em 1950, na Inglaterra, Clarice inicia o esboço do que viria a ser A Maçã no Escuro, livro publicado em 61. Antes de se fixar em Washington ela passa pelo Brasil. Trabalha novamente em jornais, entre maio e setembro de 52, assinando a página "Entre Mulheres", no jornal O Comício, no Rio, sob o pseudônimo de Tereza Quadros. Em setembro vai para os Estados Unidos, grávida. Durante os oito anos de permanência no país, vem ao Brasil várias vezes. Em fevereiro de 53, nasce Paulo. Ela continua a escrever A Maçã no Escuro, em meio a conflitos domésticos e interiores. Mãe, Clarice Lispector divide seu tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, os contos de Laços de Família e a literatura infantil. O primeiro livro para crianças seria O Mistério do Coelhinho Pensante , uma exigência do filho Paulo. A obra ganharia o prêmio Calunga, em 67, da Campanha Nacional da Criança. Ela ainda escreveria três livros infantis: A Mulher que Matou os Peixes, A Vida Íntima de Laura e Quase de Verdade.
Nos Estados Unidos, Clarice Lispector conhece Érico e Mafalda
Veríssimo, dos quais torna-se grande amiga. Veríssimo e família
retornam ao Brasil em 56. Entre os escritores, inicia-se uma vasta
correspondência. No primeiro semestre de 59, o casal Gurgel Valente
decide-se pela separação. Clarice volta a morar no Rio de Janeiro,
com os filhos. Sobre o "conciliar" casamento/literatura, afirmava
que escrevia de qualquer maneira, mas o fato de cumprir o seu papel
como mulher de diplomata sempre a enjoou muito. Cumpria a obrigação.
Nada além. Na volta ao país, mais um período de dificuldades
afetivas e financeiras. Ela prefere a solidão ao círculo que tinha
relação com o ex-marido.
Entre 65 e 67, Clarice dedica-se à educação dos filhos e com a
saúde de Pedro, que apresenta um quadro de esquizofrenia, exigindo
cuidados especiais. Apesar de traduzida para diversos idiomas e da
republicação de diversos livros, a situação econômica de Clarice é
muito difícil. Em setembro de 67, acontece o acidente que deixa
marcas no corpo e na alma da escritora - um incêndio no quarto que
ela tenta apagar com as mãos. Fica gravemente ferida, passa 3 dias
entre a vida e a morte. Três dias definidos por ela como "estar no
inferno."
Os últimos anos de vida são de intensa produção: A Imitação da Rosa (contos) e Água Viva (ficção), em 1973; A Via Crucis do Corpo (contos) e Onde Estivestes de Noite, também contos, em 74. Visão do Esplendor (crônicas), em 75. Nesse ano, é convidada a participar, em Bogotá, do Congresso Mundial de Bruxaria. Sua participação limita-se à leitura do conto O Ovo e a Galinha. No ano seguinte, Clarice Lispector recebe o 1° prêmio do X Concurso Literário Nacional, pelo conjunto da obra.
Em 77, concede entrevista à TV Cultura, com o compromisso de só ser transmitida após a sua morte. Ela antecipa a publicação de um novo livro, que viria a se chamar A Hora da Estrela, adaptado para o cinema nos anos 80 por Suzana Amaral.
Clarice morre, no Rio, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia
antes do seu 57° aniversário. Queria ser enterrada no Cemitério São
João Batista, mas era judia.
TEXTO EXTRAÍDO, NA ÍNTEGRA, DO PROGRAMA "ÍNDICE CULTURA -
Editoria Especial"
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